Entre os grandes desafios do tempo presente que enfrentamos, penso que o maior deles é a manutenção da ordem democrática, reconhecida como problemática e imperfeita. Nesse sentido, a eleição presidencial do segundo turno aponta para um quadro preocupante. Para analisá-lo, aproveito as reflexões expostas em uma recente entrevista da antropóloga, professora e escritora Lilia Schwarcz, publicada no jornal “El País Brasil” (07/10), e um artigo do professor Steven Levitsky, publicado na “Folha de S.Paulo” (05/10).

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De acordo com a professora da USP, “os brasileiros tendem a ver os governantes como um grande pai”. Schwarcz destaca que “o público ainda é entendido como algo quase familiar. Construímos instituições fracas e chamamos os governantes por seus próprios nomes, como os santos, ou transformamos seus nomes em apelido”. Somos todos responsáveis, em alguma medida, pelos rumos do País e de pouco adianta ficar buscando responsabilizar sempre os outros.

Para o professor Levitsky, da Universidade de Harvard, “a democracia do Brasil está vulnerável – vive seu momento mais vulnerável em uma geração. Os brasileiros precisam agir para defendê-la”. Segundo o acadêmico, há boas razões para que a democracia seja defendida. A primeira delas diz respeito ao fato de que não existem provas de que o autoritarismo ofereça soluções melhores. Ditaduras não funcionam melhor do que democracias no plano econômico e foram poucas que se saíram bem (Cingapura, Taiwan, China).

Ditaduras tampouco se saem tão melhor na redução do crime e no combate à corrupção. Segundo afirma Levitsky, “na verdade, ditaduras são mais propensas à corrupção do que as democracias”. Há muito a perder com o autoritarismo. Uma queda ao autoritarismo, ainda que breve, eliminaria esforços políticos de construção de instituições democráticas e republicanas, um problema que prejudicou muito países como Argentina, Bolívia, Equador e Peru. Nesses países citados, a democracia entra em colapso a cada vez que acontece uma crise.

A confiança pública na democracia está em queda na América Latina. O descontentamento cresceu no México, na Argentina, no Peru, na Colômbia e até mesmo no Chile e na Costa Rica. O desafio para a frente democrática brasileira que deverá emergir neste segundo turno eleitoral não é pequeno. Será preciso aglutinar democratas de diversos tons políticos. Conforme pondera o cientista político Levitsky, “se a democracia brasileira falhar, isso poderia resultar em uma onda de rupturas democráticas na América Latina”. Essa não seria a primeira vez.