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A Revista Britânica The Economist publicou na manhã de hoje um artigo em que desconstrói o “mito” Bolsonaro, definindo sua plataforma como uma “perversão do liberalismo” pela inclinação autoritária que sua história como político representa.

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Diz a revista:

Em julho, em uma convenção de seu pequeno e inaptamente chamado Social Liberal Party, Jair Bolsonaro revelou sua contratação de estrelas. Paulo Guedes, um economista de livre mercado da Universidade de Chicago, fez muito para convencer os empresários brasileiros de que Bolsonaro pode ser confiável para o futuro do país, apesar de seus insultos a mulheres, negros e gays, seu carinho retórico por ditadura e súbita de sua professa conversão à economia liberal. Na convenção, Guedes elogiou o Sr. Bolsonaro por representar a ordem e a preservação da vida e da propriedade. Sua própria entrada na campanha, acrescentou, significa “a união da ordem e do progresso”.

Reconhece-se que seu sucesso nas pesquisas se deve muito mais aos “erros” do PT do que ao seu mérito eleitoral: “Bolsonaro se beneficiou de um clima de desespero público em relação à crescente criminalidade, corrupção e uma crise econômica causada pelos erros de um governo anterior.” Comicamente, diz que “Na apresentação de PowerPoint que se passa por seu programa de governo, o Sr. Bolsonaro promete “um governo democrático liberal“.

O bastião do liberalismo britânico tem, todavia, poucas esperanças de esta plataforma se realizar, nem de honrar o “SOCIAL” que figura no nome de seu partido, o Partido Social Liberal.

No entanto, as manifestações de Bolsonaro não costumam ser nem liberais nem democráticas. Ele diz querer a “ordem”, mas não a lei. Ele defende que a polícia mate criminosos, ou aqueles que eles acham que podem ser criminosos. Ele quer mudar a política de direitos humanos para “dar prioridade às vítimas”, embora presumivelmente isso não signifique as vítimas de assassinatos extra-legais pela polícia. Ele não tem uma consideração liberal pelo bem público em seus planos de favorecer os agricultores sobre o meio ambiente e retirar o Brasil do acordo de Paris sobre a mudança climática.

A desregulação econômica prometida é, entretanto, acompanhada por uma “regulação moral” do espaço individual:

Enquanto Guedes propõe desregulamentação econômica, Bolsonaro quer a “re-regulação moral”. Ele promete “defender a família”; “defender a inocência das crianças na escola” contra a alegada propaganda homossexual; e se opor ao aborto e à legalização das drogas. Como congressista, ele propôs o controle da natalidade para os pobres. Ele chama de “heróis” os generais que tomaram o poder como ditadores no Brasil em 1964 e governaram por duas décadas . Em julho, um de seus filhos, Eduardo Bolsonaro, que é deputado federal, disse que “um soldado e um cabo” seriam suficientes para fechar a suprema corte (…).

Quando Comte sequestrou o liberalismo

A revista também aponta que o discurso de “Ordem e progresso” não menciona  “liberdade” ou “igualdade”. O slogan estampado em nossa bandeira foi idealizado quando o Brasil se tornou uma república em 1889 sob a influência do positivismo, um conjunto de idéias associadas a Auguste Comte, um filósofo francês.

Os positivistas acreditavam que o governo, por uma elite “científica” de alto nível, poderia trazer sociedades industriais modernas sem violência ou luta de classes. O positivismo era pouco mais que uma nota de rodapé na Europa. Mas foi extremamente influente na América Latina, especialmente no Brasil e no México.

Esta escola de pensamento combinou uma preferência por um governo central forte com uma concepção da sociedade como um “coletivo hierárquico“, em vez de uma aglomeração de indivíduos livres.

O positivismo seqüestrou o liberalismo e sua crença de que o progresso viria da liberdade política e econômica para os indivíduos, justamente quando isso parecia ter se tornado a filosofia política triunfante na região no terceiro quarto do século XIX.

O positivismo adota o liberalismo como um “mito fundador” mas que dificilmente se realiza politicamente, evocando a máxima de Francisco G. Cosmes, um positivista mexicano, afirmou em 1878 que, em vez da sociedade dos “direitos”, preferia “pão… segurança, ordem e paz”.

O aspecto menos luminoso do positivismo reside em seu darwinismo social e “racismo científico”, rejeitando “a crença liberal no igual valor de todos os cidadãos“. O positivismo via “a solução para o atraso latino-americano na imigração de trabalhadores europeus brancos, o que inicialmente impediu um aumento nos salários rurais para ex-escravos e servos”. Não foi um deslize casual a afirmação do candidato a vice de Bolsonaro quanto à pele clara de seu neto melhorando a raça de sua família originalmente indígena.

O liberalismo se corrompeu ao chegar por aqui, perdendo os aspectos mais progressistas, do ponto de vista social e individual, e focando apenas na estrutura econômica de exploração dos recursos naturais e humanos abundantes na região. Diz a reportagem:

O liberalismo se esforçou para mudar sociedades marcadas por grandes desigualdades raciais e sociais, herdadas do colonialismo ibérico, especialmente na zona rural da América Latina. Os liberais aboliram a escravidão e a servidão formal a que os índios foram submetidos nos Andes e no México. Mas o campo permaneceu polarizado entre proprietários de latifúndios e trabalhadores com contratos compulsórios (indentured laborers). Não havia pequenos proprietários rurais (yeoman farmers), ou uma burguesia rural. André Rebouças, líder do movimento para abolir a escravidão no Brasil (que aconteceu apenas em 1888), previa uma “democracia rural” resultante da “emancipação do escravo e sua regeneração através da propriedade da terra”. Isso nunca aconteceu.

 

Guerra de Canudos e as Favelas Cariocas

A reportagem ainda faz uma referência aos esforços do “governo positivista” desafiado por Antonio Conselheiro em atrair, por meio da educação, esses “rudes e atrasados compatriotas para… nossa vida nacional” , na visão “liberal de um escritor positivista” como Euclides da Cunha em Os Sertões.

Mais uma vez, isso não aconteceu. Veteranos da campanha de Canudos montaram as primeiras favelas do Rio de Janeiro, que logo foram preenchidas com migrantes do nordeste. Seus descendentes podem acabar sendo vítimas do incentivo do Sr. Bolsonaro à violência policial.

 

Corporativismo: a mutação do positivismo tupiniquim

As ditaduras na América Latina refletiram uma evolução na organização econômica e política da região. “Com a industrialização e a influência do fascismo europeu, o positivismo se transformou em corporativismo, no qual a liberdade econômica rendeu à organização da economia do Estado, bem como à sociedade, em unidades funcionais monopolistas (sindicatos e organizações patronais, por exemplo). O corporativismo, com o poder concedido a funcionários de todos os tipos, atraiu muitos militares da região.”

O militarismo corporativista combinou autoritarismo e uma pretensa agenda econômica liberal de austeridade fiscal e contenção monetária que, no Brasil, tinha em Mário Henrique Simonsen seu principal teórico e formulador de política econômica. No entanto, o resultado da militarismo corporativista foi decepcionante do ponto de vista social:

A ditadura que o senhor deputado Bolsonaro tanto admira ignorou o pedido de [Euclides d]a Cunha: deixou aos líderes civis [que assumiram o poder após a ditadura] um país em que um quarto das crianças entre os sete e os 14 anos não frequentava a escola. Somente no atual período democrático, sob a constituição de 1988, o Brasil alcançou a educação primária universal e a educação secundária em massa.

 

Pinochet e Bolsonaro

A reportagem analisa brevemente o casamento profano de militarismo e liberalismo na América Latina e conclui:

Bolsonaro é fã de Pinochet, que “fez o que tinha de ser feito”, disse ele em 2015. (Isso incluiu a morte de cerca de 3 mil opositores políticos e a tortura de dezenas de milhares.) O sr. Guedes, que lecionou na Universidade do Chile. na década de 1980, quando o reitor de sua faculdade de economia era o diretor de orçamento de Pinochet. Guedes quer um imposto de renda unforme, uma medida libertária, mas não liberal. (Adam Smith, o pai da economia liberal, favoreceu um imposto progressivo.)

Bolsonaro não estaria à altura de Pinochet, sendo um corporativista e um militar indisciplina de pouca expressão. Apesar de apoiar muitas das propostas “sensatas” de Paulo Guedes, como privatizações e a busca por maior equilíbrio fiscal, a revista desconfia que “Bolsonaro será seu oponente” nestes temas, dada a sua visão corporativista do Brasil.

A reportagem conclui, salientando os riscos de uma “democracia não liberal”, caso Bolsonaro se veja rodeado por conflitos sociais e demandas de grupos de interesse:

Sob uma presidência de Bolsonaro, o Brasil poderia esperar por uma economia reformada e de crescimento mais acelerado e por um presidente que mantivesse seus impulsos autoritários sob controle. Mas há muitos riscos. Talvez o maior seja a democracia iliberal que mantenha eleições periódicas, mas não a prática do governo democrático com seus freios e contrapesos e regras de justiça. Isso poderia acontecer se uma presidência de Bolsonaro desmoronasse em um conflito permanente, tanto dentro do governo quanto entre ele e uma oposição inflamada pela agressão verbal de Bolsonaro. Frustrado, ele poderia atacar a legislatura e os tribunais. Separar a liberdade econômica e política pode parecer um atalho para o desenvolvimento. Mas na América Latina raramente o é: a demanda por um governo forte sempre concorreu com um persistente desejo de liberdade.

Sinais, fortes sinais!

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