Desde a eclosão da crise financeira mundial, a partir de 2008, a recessão democrática vem descrevendo muito bem o fim do processo de ampliação das democracias no mundo. Nesse sentido, o instigante livro “Como a democracia chega ao fim”, de David Runciman, professor da Universidade de Cambridge, merece destaque.

Livro Runciman

Segundo Runciman, “o próprio populismo nada tem de novo. Surge nas sociedades democráticas em determinadas condições: crise econômica, mudança tecnológica, desigualdade crescente e ausência de guerra”. O professor destaca que nunca houve uma democracia que caísse sob o domínio militar com um PIB per capita superior a oito mil dólares. Um problema levantado é que na maioria das democracias funcionais, o povo se limita ao papel de espectador.

Em uma “democracia de espectadores”, pondera Runciman, a grande diferença entre um golpe de Estado clássico e de outros tipos é que o primeiro se mostra um evento isolado, enquanto os outros tipos derivam de processos políticos graduais. De acordo com a perspectiva descrita pelo cientista político, “enquanto o povo espera que o golpe real se revele, o golpe gradual pode estar em curso há tempos”.

Para Runciman, “a democracia não está funcionando bem – se estivesse, não veríamos esse retrocesso populista”. As pessoas estão insatisfeitas com o funcionamento das instituições em um contexto global de elevação das desigualdades nos países. Segundo argumenta o professor, “depois da crise financeira de 2008, as condições para o retrocesso populista em reação à desigualdade estavam dadas”. Nesse problemático contexto, a pós-verdade seria a antessala do fascismo.

Acusar a banalidade do mal não é o suficiente para os defensores da democracia. Mostra-se bem necessário evocar a clássica ética da responsabilidade, ou, como sugere o autor, adotar o princípio da precaução. Afinal, há responsabilidades individuais pelas consequências coletivas de opções e decisões politicas. Conforme afirma Runciman, “se a democracia for vista como uma questão acessória, os cidadãos das democracias podem se sentir desconsiderados”.

O professor destaca ainda que a democracia moderna se tornou excessivamente mecânica e artificial. Seguindo essa linha de raciocínio, ele diz que ela “não proporciona uma alternativa aos sistemas complexos que supostamente se encarrega de regular”. Portanto, bastam indivíduos inescrupulosos capazes de utilizar as tecnologias para banalizar o mal.