Publicado em 1997, “A globalização foi longe demais?”, de Dani Rodrik, economista e professor da Universidade de Harvard, ainda é capaz de levantar instigantes reflexões. O argumento central do livro afirma que as integrações internacionais dos mercados de bens, serviços e capital pressionaram as sociedades a alterarem as suas práticas e tradições. Nesse sentido, o avanço do populismo de extrema-direita se explicaria pela defesa de parcelas das sociedades contra a globalização.

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Segundo pondera Rodrik, “a lição da história parece ser que a globalização continuada não pode ser dada como certa. Se suas consequências não forem tratadas de maneira inteligente e criativa, um retraimento da abertura torna-se uma clara possibilidade”. A globalização, argumenta o economista, não precisa ser uma corrida para baixo nos salários de trabalhadores e tampouco uma história de desmonte inexorável dos sistemas de seguridade social.

No entanto, ressalta Rodrik, “a globalização torna o nivelamento por baixo uma possibilidade”. A curva da demanda da mão de obra de uma economia mais aberta é mais plana, mais elástica. Em síntese, “a abertura amplia os efeitos dos impactos no mercado de trabalho”. Os impactos causados por aumentos ou reduções na produtividade dos trabalhadores resultam em uma maior volatilidade nas rendas e nas horas trabalhadas. A instabilidade é a regra nos resultados do mercado laboral.

Contrariando o senso comum, Rodrik aponta, para a segunda metade do século XX, que houve “uma associação positiva surpreendentemente robusta entre os países [desenvolvidos], entre o grau de exposição ao comércio internacional e a importância do governo na economia”. Entretanto, quando a abertura aumentou, os tributos sobre o capital diminuíram e a tributação sobre a renda do trabalhador aumentou. Portanto, “em altos níveis de integração há um conflito entre a abertura e a manutenção do consenso social”.

Para Rodrik, “os gastos do governo – com seguridade social e previdência nos países ricos e com o consumo nos países mais pobres – são mais elevados nos países que estão expostos a quantidades significativas de risco externo”. As evidências apontam que a globalização reduz a capacidade dos governos em gastar com programas sociais, dificultando a taxação sobre o capital e deslocando para o trabalho uma parcela crescente da carga de tributos. Como alerta, Rodrik diz que “o gasto social vem tendo a importante função de comprar a paz social”. A necessidade do seguro social aumenta com a integração global.