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Em minha disciplina de História do Pensamento Econômico, discutimos as várias escolas de pensamento contemporâneo, que emergem a partir da crítica ao paradigma neoclássico. Uma delas é a Escola Feminista de Economia, em que a própria produção do conhecimento está sujeita a relações de poder que desfavorecem o olhar feminino sobre o objeto de estudo da Economia, como reflexo das próprias estruturas patriarcais que informam o desenho das nossas instituições políticas e sociais e que mantêm as desigualdades de oportunidades e de resultados entre homens e mulheres. Neste sentido, dois estudos recentes jogam luz sobre estes determinantes ocultos da desigualdade entre gêneros. Vejamos.

 

Dançando com lobos

O editor do interessante blog de economia convencional Marginal Revolution e colunista da Bloomberg Tyler Cowen discutiu em sua última coluna estes dois novos estudos sobre as diferenças de gênero que darão muito pano pra manga nos meus especializados. Diz Cowen:

O primeiro novo estudo concentra-se no desempenho no ensino médio, e o resultado surpreendente é o seguinte: as meninas com maior exposição a meninos de alto desempenho (representados pela educação dos pais) têm uma chance menor de receber um diploma de graduação.

Além disso, elas são piores em matemática e ciências, são menos propensas a ingressar na força de trabalho e mais propensas a ter mais filhos, o que, por sua vez, pode limitar suas perspectivas de carreira.

Esses são resultados preocupantes. A exposição a pares de alto desempenho normalmente é esperada para ser um plus, não um menos. É o que os pais estão tentando fazer quando colocam seus filhos em escolas melhores, ou quando os sistemas escolares se esforçam para atrair melhores alunos.

Os autores exploram possíveis mecanismos que geram este “hiato de autoconfiança” e descobriram que “uma maior exposição [de meninas a filhos masculinos de pais com elevada escolaridade] reduz a autoconfiança e limita as aspirações das mulheres, bem como estimula um comportamento mais arriscado (incluindo ter um filho antes dos 18 anos). Como esperado, as meninas mais afetadas são aquelas na metade inferior da distribuição de habilidades (medida pelo Peabody Picture Vocabulary Test), aquelas que contam com pelo menos um pai com formação universitária e aquelas que frequentam uma escola na metade superior da distribuição socioeconômica.

Alternativamente, a maior exposição a meninas com “alto desempenho” aumenta o nível de titulação acadêmica para meninas na metade inferior da distribuição de habilidades, aquelas com um dos pais sem formação universitária e aquelas que freqüentam uma escola na metade superior da distribuição de renda.

O efeito da exposição a pares de alto rendimento nos resultados masculinos é marcadamente diferente: os meninos não são afetados por esta exposição a quaisquer dos sexos.

 

Just say the word and I’ll say yes…

O segundo novo estudo é ainda mais curioso. Os pesquisadores descobriram que mesmo a avaliação às cegas (blind review) não está imune a preconceitos de gênero no processamento de pedidos de propostas de bolsas de estudo e de pesquisa, com base em dados da Fundação Gates. O mecanismo do preconceito tem a ver com os estilos de comunicação.

Mulheres e homens têm diferentes estilos de comunicação, com as mulheres mais propensas a usar palavras estreitas, e os homens são mais propensos a usar palavras mais amplas. Os pareceristas que avaliam os projetos, ao contrário, preferem palavras mais amplas, que são mais comumente associadas a afirmações mais abrangentes, desfavorecendo o uso de muitas palavras estreitas.

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Taxa de uso de palavras “Amplas” (Broad) em verde e “Estreitas” (Narrow) em laranja entre homens (eixo vertical) e mulheres (eixo horizontal)

Na imagem acima, note que a parte superior do gráfico está repleta de quadrados verdes, indicando os homens utilizam palavras mais amplas com maior freqüência que as mulheres. Além disso, a pesquisa mostra que as palavras que os homens tendem a adotar com mais frequência que as mulheres recebem peso maior na avaliação, revelando a presença de um viés nos critérios de avaliação difícil de detectar.

O resultado do estudo é que “mesmo em um processo de avaliação anônima, há uma relação negativa robusta entre candidatos do sexo feminino e as pontuações atribuídas pelos avaliadores”. Essa discrepância persiste mesmo após o controle do tema do projeto e de outras variáveis. A diferença desaparece quando se controla pelos diferentes estilos de escrita.

 

Patriarcalismo soft?

Os estudos não exploram políticas para o fechamento deste hiato de autoconfiança, mas revelam que as estruturas patriarcais de poder são mais sutis do que normalmente se crê, afetando possivelmente o próprio discurso das mulheres, de maneira que os mecanismos de impessoalidade (como o blind review) não sejam suficientes para garantir  igualdade de oportunidades.

Cowen conclui que esses dois estudos provavelmente estão conectados entre si, muito embora não haja referências mútuas entre eles. Não é um grande salto pensar em uma linguagem mais ampla e abrangente refletindo um tipo de autoconfiança, seja ela merecida ou não. As palavras estreitas, por outro lado, podem refletir um nível mais baixo de autoconfiança ou um senso mais elaborado de modéstia discursiva. Tanto a falta de autoconfiança quanto uma menor disposição para sinalizar sua autoconfiança – independentemente de ser genuína ou não – pode prejudicar muitas mulheres.

O mesmo pode ser dito sobre a exposição a garotos com alto desempenho. O patriarcalismo pode ter efeitos profundos na formação das mulheres nos primeiros anos de vida, quando se notam diferenças nos estímulos adotados na educação de meninos e meninas. É possível que o modelo educacional familiar favoreça a maior resiliência e autoconfiança nos garotos enquanto as meninas, por serem mais protegidas e terem sua “fragilidade” repetidamente reforçada, podem ser levadas a desenvolver menos recursos cognitivos e emocionais para lidar com situações de estresse ou de elevada pressão por resultados.

Afinal, as meninas estudam mais e têm, em média, melhores desempenhos acadêmicos que os meninos. O que vários estudos de desigualdade entre gêneros vêm mostrando é que o discurso da meritocracia trata como iguais condições muito desiguais de concorrência. A igualdade entre desiguais passa por compreender de forma ampla as diferenças nas realidades de gênero e de orientação sexual e reduzir, via aumento da diversidade nas instituições e nos fóruns em que são tomadas as decisões da sociedade, seja na política, seja nos comitês de avaliação de projetos de financiamento.