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A rica literatura em desigualdade mostra que existem muitos mecanismos de perpetuação da desigualdade de renda e de riqueza. Riqueza gera riqueza e atrai mais riqueza. Até aí, nenhuma novidade. O que uma ampla produção nesta área vem mostrando é que há mecanismos muito mais sutis pelos quais a desigualdade opera. E os resultados podem ser muito nocivos para o conjunto da coletividade.

Um estudo recente foi publicado na Revista de Personalidade e Psicologia Social, mostrando como a incompetência para tarefas autoimpostas é menos percebida em pessoas nascidas no alto da pirâmide da renda. Ser “bem-nascido” (os high-borns de GoT, como Jeoffrey Lannister, abaixo) está relacionada a uma super-autoconfiança não necessariamente baseada em mérito ou competências efetivas.

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Jeoffrey Lannister, seriado Game of Thrones, HBO.

Em vários experimentos, eles descobriram que as pessoas que vieram de uma classe social mais alta tinham mais probabilidade de ter um senso inflado de suas habilidades (“excesso de autoconfiança“) – mesmo quando os testes provaram que suas competências eram medianas. Esse excesso de confiança imerecido foi interpretado pelos respondentes à pesquisa como reflexo de competência efetiva.

Esta pesquisa traz à tona outra maneira pela qual a riqueza familiar e a educação dos pais – dois de vários fatores usados para avaliar a classe social no estudo – afetam a experiência de uma pessoa.

É o que a meteoricamente famosa Bettina definiu como “estrutura familiar”; ou seja, onde você nasce continua sendo determinante do seu destino. Condições iniciais importam muito!

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A relação entre classe social e autoconfiança tem possivelmente a ver com o custo dos “erros”e de tentativas malfadas para diferentes estratos sociais. Em um contexto de classe de baixa renda, o custo é maior se você estiver errado. Por isso, pessoas na base da escala de renda tendem a ser mais tímidas quanto às suas próprias capacidades e competências. [O argumento do estudo foi resumido em uma reportagem do New York Times (aqui).]

No plano de uma sociedade desigual, continua valendo a máxima do provérbio antigo: não basta ser competente, deve-se parecer competente. Os riscos embutidos aqui são enormes e com efeitos potencialmente muito injustos.

Se pessoas incompetentes assumem postos de liderança e de elevada remuneração, seus erros podem levar a uma combinação de perdas para as instituições e para a sociedade, sem a devida compensação no prestígio e ganhos destas pessoas. A crise de 2008 e os desastres de Mariana e Brumadinho (MG) deixam claro que as punições à elite não têm muito suporte social. Até hoje ninguém foi punido e os líderes de bancos e de empresas continuam engordando suas contas bancárias à razão de milhares de vezes o salário médio dos trabalhadores destas mesmas instituições.