Entre as discussões que temos feito no Observatório do Desenvolvimento Capixaba (ODC) encontra-se o debate multifacetado sobre a extensão da crise econômica e suas repercussões sociais. A crise econômica brasileira se aprofundou entre 2015 e 2016, afetando ricos e pobres. No entanto, tendo em vista o conhecido perfil regressivo da nossa carga tributária, os mais pobres pagaram e continuam pagando a maior parte da conta.

Alguns estudos recentes mostram que nos últimos anos os 10% mais ricos já superaram as perdas, enquanto que os brasileiros mais vulneráveis amargam uma queda de mais de 20% da renda. Somando os últimos sete anos, a renda do estrato mais rico aumentou 8,5% e a dos 50% mais pobres caiu 14%. A frágil retomada econômica tem sido desigual para os trabalhadores, pois ela gerou relativamente poucos empregos e “favoreceu” os trabalhadores de renda mais alta. Muitas das pessoas que conseguem reingressar no mercado estão indo para o setor informal, precário.

O topo do mercado de trabalho formal está se distanciando da base de forma ligeira, algo que não se viu desde o começo de 1990. Do ponto de vista da estrutura produtiva, é preciso destacar que ela havia sofrido um processo de desindustrialização precoce e que a extensão da crise econômica iniciada no segundo trimestre de 2014 afetou o mercado de trabalho. Em síntese, recessões deixam marcas na economia e recessões prolongadas deixam marcas ainda maiores nas estruturas econômicas, afetando a produtividade total dos fatores e as perspectivas futuras de crescimento.

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O quadro geral descrito não é tão distante da realidade vivida no Estado do Espírito Santo e em outras unidades federativas. A imprensa vem noticiando que o endividamento das famílias subiu neste ano, atingindo o patamar de 63,4%, sendo que 24,1% das famílias apresentaram contas atrasadas, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC) para o mês de maio. Como principal vilão do endividamento destacou-se o cartão de crédito, para 78,6% das dívidas. Somos um povo que paga uma das taxas mais altas de juros do cartão de crédito no mundo.

Concentrações de rendas e patrimônios não são fenômenos novos no Brasil. A estrutura produtiva nacional refletiu historicamente tais questões desde os tempos da escravidão. O projeto primário-exportador da Primeira República cafeeira acomodou interesses oligárquicos estruturados no coronelismo político. Na antessala dos 200 anos da Independência, é preciso questionar o que desejamos efetivamente como nação.