A política econômica é feita em cima do manual de economia?

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Tempos atrás li e ouvi críticas do tipo “fazemos política econômica em cima de manual e que não reflete a realidade”. Isso é verdade? Não. Pelo menos, não com essa relação causal.

Um manual em economia agrega as principais contribuições, modelos e discussões que fazem parte de certa área. Assim proporcionando uma visão simplificada e introdutória, mesmo nos manuais voltados para pós-graduação. Porém, o manual não é suficiente e não tem o propósito de explorar com profundida as discussões e posições divergentes na literatura. Além disso, a aplicabilidade e os problemas atuais podem não ser incorporados na medida em que são casos específicos e/ou que estão em discussão.

Para exemplificar, consideramos alguns bons manuais de macroeconomia com foco em alunos de graduação: Blanchard et al. (2010); Bernanke et al. (2011); Mishkin (2012). Os três livros foram escritos por grandes nomes, apresentam uma estrutura básica comum, mas com ênfases diferentes e que incorporam a experiência e a visão dos autores.

  • Blanchard et al. (2010) – baseado nos problemas europeus e, na parte final do livro, lança vários capítulos sobre tópicos atuais relevantes;
  • Bernanke et al. (2011) – começa com a macroeconomia de longo prazo e os principais instrumentais. Em seguida, incorpora os temas contemporâneos;
  • Mishkin (2012) – discussão inicial consiste no instrumental básico necessário para entender os modelos macro. Por fim, cerca de metade do livro é dedicado as discussões atuais com ênfase na política monetária, crises financeiras, ciclos de negócios e micro fundamentação;

Particularmente, considero o manual do Mishkin (2012) mais completo, didático e que consegue filtrar os principais temas da literatura. Em especial, por apresentar uma discussão detalhada sobre crises financeiras, relação com a política monetária, estabilidade e “unconventional monetary policy”. Ao mesmo tempo em que traz temas sobre micro fundamentos e modelos de ciclos de negócios. Assim deixa clara a evolução da macroeconomia em relação aos instrumentos, abordagens e modelos.

Após ler esses manuais, o aluno ou aluna deve ter os fundamentos para começar a entender artigos, trabalhos acadêmicos e construir modelos simplificados. Por exemplo, quais os mecanismos de transmissão, justificativas e possíveis efeitos da expansão da base monetária pela “unconventional monetary policy” praticado pelos países desenvolvidos após a crise de 2007-08[1]. Ou quais os efeitos de um ajuste fiscal feito por corte de gastos ou aumento de impostos sobre investimento, consumo e estabilidade no curto e longo prazo.

Outra crítica é que os países em desenvolvimento são diferentes dos países desenvolvidos, então o manual e a literatura não seriam aplicáveis. Isso é uma meia verdade. Já que existe uma ampla literatura que foca nos problemas dos países em desenvolvimento. Além disso, nas últimas uma ou duas décadas, surgiram manuais específicos para macroeconomia de países em desenvolvimento como VÉGH (2013) e AGÉNOR & MONTIEL (2008) que filtram os pontos mais relevantes dessa literatura. Poém, a discussão envolvendo países em desenvolvimento são tópicos mais avançados e para alunos que possuem uma boa base em macro convencional.

Os manuais são suficientes? Não.

O motivo é que em um curso de graduação é esperado que o aluno ou aluna desenvolva a capacidade de pesquisar e construir conhecimento. Para isso, o manual não é suficiente. É necessário interagir com o pessoal que entenda profundamente do tema e auxilie no caminho para entrar em contato com a literatura e discussões.

Dessa forma, é importante que os docentes que também sejam pesquisadores na medida em que conhecem a literatura e grandes discussões, modelos com seu significado, qualidades, limitações e aplicabilidade. Independente de aceitar ou não os modelos, de ser mais mainstream ou heterodoxa, preferências políticas ou influências. Para isso, a princípio, demanda um bom doutorado, realizar pesquisas, escrever e publicar, ler, conversar e trabalhar com seus pares. Assim o professor está qualificado para ministrar as aulas, orientar alunos de graduação, mestrado e doutorado, contribuir para uma discussão de fato e trazer essa experiência para atividades de docência.

Um problema é que as áreas (macro, micro, economia do setor público, economia monetária, história econômica, por exemplo) são amplas. Portanto, o professor/pesquisador pode entender muito bem um tema específico, mas ter apenas uma noção sobre os demais. Por exemplo, alguém que trabalha com macroeconomia foca um grande tema como: política fiscal; política monetária; modelos de crescimento. Dentro desses grandes temas, entende melhor e pesquisa um tema específicos. Ao mesmo tempo, o tema de pesquisa tende a incorporar outras áreas já que as fronteiras não são bem definidas. É o caso de quem trabalha com política fiscal que, possivelmente, terá uma forte base em microeconomia, economia internacional, história econômica e social, ciência política[2].

Isso não quer dizer que esse perfil de docente não erre. Ao contrário. Erra e muito, especialmente no começo de carreira. Porém, no decorrer do tempo, esperamos que admita os erros e permaneça aberto as coisas novas. Esperamos. Já que pode não acontecer.

Porém, a realidade não é essa para muitas universidades e departamentos. Na falta de pessoal o departamento pode contratar um professor substituto ou delegar algum professor efetivo determinada matéria que não é da sua área. A consequência é uma aula de pior qualidade, independente do esforço individual do ministrante na medida que demandam anos para entender os temas e as discussões presentes em certa área.

A perda de qualidade pode incluir dois extremos. Primeiro, acreditar demais no manual ao não ser capaz de questionar o que está escrito, assim ignorando outras visões e avanços da literatura. Segundo, desacreditar o manual na medida em que considera os modelos e literatura irreais, sem relevar que são uma visão estilizada e simplificada. Além disso, não são casos tão raros, professores se declararem de uma área e não produzirem ou estudarem sobre seu suposto tema de pesquisa. Talvez, em ambos os casos, mesclando com alguma visão política-ideológica que não cabe na discussão. Assim como misturar esquerda versus direita ou heterodoxia versus ortodoxia que contribuem para criar confusão e distorções.

Por exemplo, retornando a matéria de macroeconomia, o professor que não é da área pode confundir os modelos keynesianos tradicionais com os modelos novo keynesianos. Eles parecem similares, mas têm mecanismos de transmissão, micro fundamentação, hipóteses e resultados muito diferentes. Não é uma questão de concordar ou não, mas entender como funcionam, qual o contexto em que foram desenvolvidos e seu significado.

É importante ressaltar que as opiniões e argumentos dos autores e autoras não são neutros, mesmo daqueles que são da área. Primeiro, por mais bem fundamentado que seja, o autor ou autora é influenciado pelas suas preferências político-ideológicas, de literatura e como vê o mundo, mesmo que diga que é apenas uma opinião técnica. Segundo, um título de doutor em economia não é uma autorização para falar com autoridade sobre qualquer tópico de economia. Cada vez mais, os temas possuem maior profundidade e se torna difícil alguém que não conviva com aquela literatura dar uma opinião além da superficial. Obviamente, todos podem ter opinião, mas quem a emite tem que deixar claro o quanto entende e o quanto é influenciado pelas suas preferências.

Referências

AGÉNOR, P.-R.; MONTIEL, P. K. Development macroeconomics. 3. ed. Princeton: princeton University Press, 2008.

BERNANKE, B. S.; ABEL, A. B.; CROUSHOE, D. Macroeconomics. New York: Pearson, 2011.

BLANCHARD, O.; AMIGHINI, A.; GIAVAZZI, F. macroeconomics: a european perspective. new York: pearson, 2010.

MISHKIN, F. Macroeconomics: policy and practice. Boston: Pearson, 2012.

VÉGH, C. A. Open economy macroeconomics in developing countries. Cambridge: The MIT Press, 2013.

[1]A “unconventional monetary policy” é tema atual de política fiscal, monetária e de macro internacional. A grande questão é qual o efeito dessa expansão monetária persistente no longo prazo sobre estabilidade econômica e financeira nacional e internacional, efeitos sobre consumo, investimento e poupança.

[2]Vejam o currículo de Michael Woodford, um dos pais do regime de metas de inflação, é bem diverso que incluem discussões sobre dívida pública até “cognitive limitations and decision making”.

http://www.columbia.edu/~mw2230/

Como também, Ben Bernanke que possui muitos trabalhos sobre histórica econômica utilizados como forma de testar modelos sobre estabilidade econômica, dinâmica de crises financeiras e efeitos da ação da autoridade monetária. Aliás, é muito comum os grandes nomes que tratam de finanças e política monetária tenham trabalhos com história econômica.

http://www.nber.org/authors/ben_bernanke